segunda-feira, 23 de junho de 2008

Retorno á Cidade da Beira

Vamos voltar á cidade da Beira,vamos ser rendidos pela NRP JOÃO BELO F480,e já temos novo companheiro de comissão na Beira o NRP JOÃO COUTINHO F 475.
Moçambique contava nesta altura com duas fragatas e uma corveta da Marinha Guerra Portuguesa.
No retorno á cidade da Beira,seria voltar ás noites do Moulin-Rouge,do Bar Lisboa e do Chapéu Alto,já tínhamos saudades desses recantos.
Mas também iríamos voltar ás patrulhas no Canal de Moçambique,e por conseguinte,ter de gramar com as fragatas inglesas.
O Carlos tinha uma irmã em Nampula,e já não a via á cerca de 6 anos,pediu então uma licença para visitar a irmã,foi-lhe concedida,portanto não viajaria connosco,iria depois ter á cidade da Beira.
Apanhou um Machibombo (Autocarro)em Porto Amélia,viajaria no meio de galinhas e cabritos e tudo o mais que os Moçambicanos transportavam como bagagem,era o único branco no Machibombo,e ainda por cima fardado de branco,no meio daquela bagunça a sua farda tomou outras cores,a viagem até ao Namialo(julgo que era este o nome do entreposto) demorou maisde um dia,depois o restante do percurso foi de comboio.
O Carlos ainda teve outra oportunidade de visitar a sua irmã,mas foi a partir da Beira,com viagens de avião ida e volta pagas pela Marinha.
Mas nem sempre a vida decorreu como nós pretenderíamos,após o final da nossa comissão e passado pouco mais de um ano,a Maria José,irmã do Carlos,que eu também conhecia,faleceu.
Se já estava longe da família,longe ficou para sempre.

Cidade de Nampula

Só o nosso amigo Carlos teve oportunidade de
visitar esta cidade,no norte de Moçambique.
Nampula,uma cidade moderna para a época


Nampula,Capela Militar

Postal de Nampula

Mossuril,a praia em Nampula


Aspecto da Cidade de Nampula

Catedral de Nampula


Nampula

domingo, 22 de junho de 2008

Militares Transportados

No norte de Moçambique,fazíamos base em Porto Amélia,e era dessa cidade que iniciávamos sempre as missões que nos estavam confiadas.
Dai partíamos com os militares que se deslocavam para o norte,excepto os paraquedistas que íamos buscar a sul a Nacala.
Transportamos pelotões(julgo que seja este o termo exacto) de militares do Exercito,pelotões de Morteiros,Destacamentos de Fuzileiros (algumas vezes desembarcados por nós na costa ) e os paraquedistas que nos brindavam quase sempre com cabras a bordo,
Entre os Militares transportados os Fuzileiros estavam em casa,os Paraquedistas,esses então enturmavam-se connosco e já faziam da fragata o seu segundo aquartelamento, o Exercito, resumiam-se a olhar o mar,fumar e manterem-se pelos locais destinados,fazendo toda a viagem com total ausência de espírito,e como se fossemos nós os culpados de se dirigirem para zonas de combate.
Um dia apareceu-nos a bordo um grupo de militares,de quem já tínhamos ouvido falar em Angola,mas com quem nunca tínhamos contactado,tratava-se de um grupo de GE,totalmente fardados de negro,constatando com a cor da sua pele,entre eles três ou quatro militares metropolitanos quase todos Furriéis.
Em conversa com os seus superiores,foi-nos relatado,que aqueles militares se movimentavam na mata,com um á vontade sem igual,eram militaristas e aguerridos,eram o terror dos guerrilheiros da Frelimo,por nunca fazerem prisioneiros.
Ficou-nos sempre a dúvida,se seria verdade ou estavam a enaltecer o seu grupo de combate.
Ao longo de anos,têm-se escrito muitas verdades e muitas mentiras,sobre a guerra colonial,criando-se até mitos sobre certas personalidades a nivel individual,ou grupos de militares combatentes.
Nós temos conhecimento de um caso concreto,soubemos,que o nosso camarada e amigo "Maia" do D.F.E. n.º 5 http://dfe5-moz1969-71.blogspot.com/ foi agraciado com uma Cruz de Guerra por feitos em combate.
Durante todos estes anos e encontrando diversas vezes o "Maia"(chegámos a trabalhar juntos )
nunca lhe perguntei nada sobre a sua Cruz de Guerra,porque não sabia se a sua memória, guarda boas ou más recordações da Guerra Colonial.
Militar dos,
Grupos Especiais


Vista da cidade e da Baía, de Porto Amélia


Baía de Porto Amélia


Hospital de Porto Amélia

Pesca na Baía de Porto Amélia

sábado, 21 de junho de 2008

Ilha do Ibo ( 2 )

Segundo dia na Ilha do Ibo,segunda festa,no dia anterior,aquela gente simples presenteou-nos com o melhor que tinham,hospitalidade,humildade e acima de tudo o respeito pelas Forças Armadas Portuguesas.
Na segunda festa veríamos como íamos ser recebidos.
Como a festa estava aprazada para o entardecer,o despenseiro Alberto,pretendeu saber se mandava fazer jantar para quem ia para terra,a resposta recebida foi não,pois quem iria á festa estava convidado para o jantar.
Durante a tarde fomos bebendo umas cervejas que pagávamos e iamo-nos entretendo com o baile,e por lá íamos arrastando os sapatos.
Chegou a hora do jantar,e ouvimos um aviso,que para o jantar (frango assado)deveriam tirar a senha,fazendo o respectivo pagamento,e depois dirigir-se á zona dos fogareiros e receber o dito frango.
Ficamos na dúvida se teríamos de pagar também,duvida que tiramos quando um elemento dos nossos se dirigiu á caixa.
Depois de ser-mos convidados ainda ter de pagar o jantar,nada disso iríamos todos para bordo,um dos Oficiais,fez chegar ao nosso Comando a situação,e o Comando resolveu mandar o Alberto a terra pagar o jantar a todos os elementos.
Já comemos sem vontade,e logo que pudemos abandonamos todos a festa e voltamos para bordo.
Ficamos bastante melindrados com a situação,do dito por não dito.
No dia seguinte rumamos ao Oceano,com destino a Porto Amélia,voltamos mais algumas vezes a fundear frente á Ilha do Ibo,mas até ao final da comissão mais nenhum elemento da guarnição,quis pisar a Ilha do Ibo.
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

Fortaleza S.João Batista,
na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

O comércio,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Barco,da Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

Pescador,da Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

Acácia,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Planta do Sândalo,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

Cafézeiro em flor,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Casa da Sanzala,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Galinheiro,na Sanzala da Ilha do Ibo

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Ilha do Ibo

Pela primeira vez,deslocamo-nos á Ilha do Ibo,fundeamos frente á ilha,no fundeadouro já se encontrava um navio mercante estrangeiro,detectamos que na aderiça tinha içada uma bandeira para nós desconhecida,não era a bandeira portuguesa,imediatamente houve comunicação para bordo do mesmo,arrearam a bandeira e içaram a portuguesa,pela primeira vez tínhamos visto a bandeira da Frelimo,o incidente ficou sanado.
Sem sabermos,chegámos em véspera de festejos na ilha,o Administrador convidou-nos para as festas no dia seguinte,mas no mesmo dia fomos convidados pelo chefe da tabanca local,para um batuque,o nosso comando aceitou o convite,e á noite lá estávamos.
Os habitantes da tabanca acenderam uma enorme fogueira,logo que chegou o nosso Comandante,o Oficial Imediato e respectivos Oficiais,após serem cumprimentados pelos velhos da tabanca,iniciaram-se então as músicas,danças e cantares moçambicanos.até nós dançamos,a festa do batuque decorreu de uma forma que nos agradou muito,no dia seguinte iríamos á festa dos brancos,que também nos tinham convidado.
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização

Comemoração de dia nacional,na Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Vila do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Porto da Ilha do Ibo
Fotos propriedade do Sr. Carlos Bento e publicadas com a sua autorização


Vista da Ilha do Ibo

terça-feira, 17 de junho de 2008

Destituição de Comando

Prestes a largar de Porto Amélia com destinio a norte,recebemos uma visita a bordo, que nos acompanharia durante alguns dias.
Tratava-se de um 2.º Tenente,enviado pelo Comando Operacional de Cabo Delgado.
A vinda deste Oficial para bordo,seria para em conjunto com a Unidade de Desembarque,localizar um ponto de desembarque num rio,que mais tarde,numa noite bastante escura,iriamos desembarcar um Destacamento de Fuzileiros.
Foram reunidas á ordem do Oficial visitante,duas guarnições para botes.
Ai começaram os erros,primeiramente o Oficial que julgavamos Fuzileiro (mas não era) opôs-se a que transportassemos granadas,de armamento só espingarda e um carregador de munições.
O nosso Oficial Imediato,opôs-se a que vestissemos camuflado,e ordena que o fardamento era o de trabalho e de panamá na cabeça,abriu uma excepção,podiamos ir de sandálias,não era necessário sapatos nem meias até ao joelho,os Oficiais ( o visitante e o Comandante da U.D ) igualmente equipados de boné branco e galões nos ombros.
Quem podia mandava,quem não mandava obedecia.
Tivemos foi muita sorte,se os turras nos têm detectado,era como atirar aos bonecos de feira,bastava apontar aos pontos brancos,que acertavam sempre na cabeça.
Lá nos aproximamos de terra,os Oficiais ,olhavam a bússola,faziam medições para o Sol,Terra e Horizonte,e a foz do rio não aparecia.
Tinhamos que procurar a partir de terra,como a maré estava alta,a própria vegetação escondia a foz do rio.
Mais um problema,o Oficial visitante opôs-se,nem pensar,terra só com um carregador e um total de 12 homens,se formos atacados como respondemos, esqueceu-se que as responsablidades eram dele.
O Oficial Comandante da U.D,também 2.º Tenente,ficou pasmado,então, e a missão de que fomos incumbidos,não se podia suspender uma missão senão em caso de força maior.
Resolveu e muito bem em tomar o Comando,dizendo o Comandante aqui sou eu,se for necessário ir a terra vamos,se formos atacados respondemos tiro a tiro, a fragata mandará uns
balázios de artilharia,e desembarcará a restante U.D,que nos trarão munições.
De seguido deu ordem ao segundo bote,para abandonar a posição lateral,e se colocar na esteira do bote de comando,manter uma distância razoável,e seguir o bote de comando para onde quer que ele fosse,e mandou todo o pessoal colocar bala na câmara,com arma em patilha de segurança.
Tínhamos Comandante,e da forma como pôs a situação,nós seguiamo-lo nem que fosse atravessar África de bote ou a pé.
Já quase a meter os pés na água,eis que apareceu o dito rio,a entrada estava dissimulada pela vegetação,subimos o rio, e em local pré determinado pelos Oficiais,foi dada ordem de paragem,e redesenhado um mapa,mantendo o restante pessoal muita atenção e olho bem aberto,de seguida regresso ao ponto de partida.
Alguns dias depois,lá deixamos os nossos camaradas Fuzileiros,e por azar deles a maré estava alta,tiveram de pernoitar aquela noite em cima das árvores,só quase na vazante do rio puderam seguir para o seu objectivo.






quarta-feira, 11 de junho de 2008

O Naufrago

Como já foi explicado em postes anteriores,os mesmos não têm uma ordem cronológica,as datas já á muito que se perderam no tempo,mas as histórias aqui postadas foram passadas nos sítios sempre indicados.
Hoje uma história por nós vivida,que por sinal acaba com um final feliz,com uma possivél interrogação,mas sem uma resposta.
Numa das nossas deslocações em patrulha a Palma,e á foz do rio Rovuma,que fazia fronteira com a Tanzânia,um dos vigias na ponte deu o alarme sobre algo que lhe pareceu muito estranho.
Comunicou imediatamente ao oficial de quarto á ponte de comando,ambos vasculharam a zona apontada pelo vigia,e viam um pau rodopiar,depois baixar e levantar,continuaram a ver a zona,até que por fim,uma pequena vaga põe a descoberto uma cabeça,um naufrago não havia duvida,se o pau rodopiava estava vivo,o navio rumou imediatamente para o local,aumentando a sua velocidade,foram alertados os meios na ré, para a recolha de um naufrago, não foi necessário usar os botes,bastou uma boia e uma retenida.
Assim que estava a bordo,descobrimos que o pau que rodopiava para nos chamar a atenção,não passava de uma bengala,fiel companheira,do velho pescador e que ajudava na sua locomoção,porque era deficiente.
Transportado logo á enfermaria,só lhe foi diagonosticado muito cansaço,foi-lhe colocado soro, e mais tarde alimentado com comidas leves..
Contou-nos depois que o seu barco naufragara,quando pescava para a família,e que fora arrastado pela corrente marítima para o largo,perdeu toda a sua riqueza , só salvou dos seus pertences a bengala,da sua terra falava de Palma e mais além,seria um aldeamento,talvez a muitos quilómetros de palma,numa zona costeira,mas sem sabermos se a norte ou a sul de Palma.
Desembarcado em Palma,na embarcação da Capitania,dizia-nos adeus tanto com a mão como com a sua inseparavél companheira.
Naquele dia sentimos orgulho,o orgulho de servir a Marinha,e o orgulho de salvarmos uma vida.
Seguimos a nossa patrulha,e pensávamos será que o velho já chegou á sua tabanca,como terá sido recebido pelos familiares e amigos.
Também podemos pensar,e supor, que o velho mais tarde, ao contar a sua história,tenha dito que a Marinha de Guerra Portuguesa,quando o salvou de uma morte certa,não lhe perguntou se era apoiante da Frelimo,ou da soberania Portuguesa,também não lhe perguntou, se era Cristão ou Muçulmano.


Aldeamento ou Tabanca

na zona de Palma



Palma vista da baía

terça-feira, 10 de junho de 2008

Desembarque de Militares no Norte de Moçambique

Estávamos nós numa boa (termo que se usa na actualidade )quando o Comando de Operações Militares do norte de Moçambique,resolveu pôr fim,aos nossos dias passados nas praias paradisíacas de Porto Amélia.
Analisando a questão hoje, até estávamos a poupar dinheiro aos contribuintes,não havia o desgaste das máquinas do navio,e poupávamos muito combustivél.
O Comando das Operações Militares,resolveu que estando a guerra a poucos kilometros de nós,também teríamos que participar na mesma,e até nem estávamos em veraneio.
Um dia ao entardecer ,apresenta-se a bordo o 5.º Destacamento de Fuzileiros Especiais,que de armas e bagagem iriam para a zona de Mocimboa da Praia,encontrei o Faria (filho da minha escola e companheiro de curso de Artilharia Naval ) o Garcia (que tinha estado comigo no Centro de Comunicações da Armada ) o Palma (que tínhamos estados embarcados no NRP LAJES ) o José Carlos,e outros que não menciono por esquecimento dos nomes.
Após todo o equipamento a bordo,largamos,e na manhã seguinte estávamos a desembarcá-los no batelão em Mocimboa da Praia.
A parir daquela data já sabíamos que aproximadamente 15 dias depois recolheríamos o 5.º Destacamento,e voltaríamos com o 6.º Destacamento,era um regime de rotatividade.
Os outros ramos das forças armadas não tinham data eram constantes.
Fundeados em Mocimboa da Praia, pelos binóculos vasculhamos as lindas praias,que nos davam uma vontade imensa de lá nos esticarmos ao sol.
Qual quê,ali era impossivél os turras ( Frelimo )andavam pelas proximidades,até para controlar os movimentos dos militares que chegavam em navios.
Mas mais tarde fomos contemplados pelo comando,não íamos áquelas praias de dia,mas iríamos a rios mais a norte e a sul durante a noite.
Após largarmos os Fuzileiros em locais pré determinados,descíamos os rios só com dois elementos no bote,um ao motor,e o outro deitado sobre a proa do bote de arma preparadissima para responder em caso de ser-mos atacados,e de olhos bem abertos,mesmo com a pouca visibilidade não nos podíamos perder dos botes,e atenção redobradissima ás margens do rio,pela nossa segurança,e da guarnição dos botes que nos seguiam,chegar a bordo para nós era um alivio.
Pemba ex. Porto Amélia,
um quartel abandonado
(foto recente)


Fragata no Cais de Porto Amélia

(Julgo que era o

NRP JOÃO BELO F480

que renderia depois o

NRP ÁLVARES CABRAL F336 )



Vegetação num rio,

O perigo poderia estar

camuflado pela

vegetação.


Rio em Moçambique,
com as margens
muito próximas.

Fuzileiros,
atravessando um rio

Foto do
Ex. Oficial da R.N
José Augusto Sacadura

Mapa de Moçambique

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Porto Amélia

Porto Amélia,uma cidade minúscula,onde a sua população se preocupava mais com o seu trabalho,sendo quase só visíveis ao final da tarde em rodas de amigos.
Uma população calma,sem exuberâncias,sem hostilizarem os militares,o que nos levava a respeitá-los,cidade onde éramos tratados em qualquer estabelecimento comercial,com a mesma deferência,que utilizavam para os seus habitantes ( o contrário da cidade da Beira )
Após os serviços de bordo,o nosso tempo livre resumia-se em ir para a praia até ao final da tarde,e pelo anoitecer uma volta pela cidade,sentar numa explanada e conversar,ou fazer uma visita rápida ao pakitekete ( segundo o que se dizia era o maior aldeamento ou tabanca de Moçambique ) a maioria dos seus habitantes era de etnia Makonde (a etnia que mais elementos fornecia á Frelimo )
Portanto como medida de precaução ninguém se aventurava a entrar no aldeamento sozinho.
No final das nossas refeições a bordo,começou a aparecer no cais diversas crianças e adultos munidos de latas,pediam os restos da comida,como sobrava sempre muita sopa,nós enfileirávamos as latas e devidiamos a sopa pelas mesmas,era só pegar na lata e o seu dono respondia logo,para nós as latas eram quase iguais.
Despediam-se de nós agradecendo e dizendo volta logo,queria dizer que no final da próxima refeição lá estariam.
Agregado á sua visita com a respectiva lata para a comida,aproveitavam e ainda nos vendiam grandes quantidades de mangos/mangas,por quantias quase simbólicas.
Foi nessas visitas do dá e vende,que conheci um petiz com a idade de entre 6 a 8 anos (ele não sabia a sua idade ) de nome Djumba,que mais tarde se tornaria um amigo inseparável dos elementos do nosso grupo.

A saida do cais de Porto Amélia para a cidade

Antiga capitania
de Porto Amélia,
actual capitania
de Pemba.

Café / Bar no topo da rampa,que descia para a baixa da cidade e porto.

( Local onde mais tarde festejaria os meus 20 anos )



Porto Amélia,vista de parte da cidade e da baía.

domingo, 8 de junho de 2008

Rumar ao norte

Chegou a hora de render a fragata a norte de Moçambique.
O navio foi carregado com muitas sacas de batatas e caixas contendo produtos de alimentação,que se destinavam aos militares e civis de Porto Amélia,mas antes do nosso porto de destino,teríamos de passar por Nacala,embarcar para-quedistas,e desembarca-los em Mocimboa da Praia,só depois rumaríamos a Porto Amélia.
Em Nacala,só acostamos ao porto o tempo suficiente para embarcar os para-quedistas,que além de trazerem o seu material e armamento habitual,se apresentaram a bordo com algumas cabras e cabritos,que seriam para sua futura alimentação ,e que muito trabalho nos deram.
Chegados á baía de Mocimboa da praia,e a mesma não tendo porto para acostarmos,pensamos que os para-quedistas seriam desembarcados em lanchas de desembarque,foram desembarcado num batelão que acostou ao navio,a era da modernidade ainda não tinha chegado ao norte de Moçambique.
Pela primeira vez estávamos em zona considerada de guerra,a poucos kilometros da costa e de Mocimboa da praia ,combatia-se a guerrilha.
Finalmente rumamos a Porto Amélia,quem pensou encontrar uma cidade nos moldes de Lourenço Marques ou Beira,ficou muito desiludido.
Porto Amélia era uma pequena cidade,situada na baía de Pemba,com um reduzido porto,e sem o divertimento nocturno a que nos tínhamos acostumado,e que teria de ficar adiado para outras paragens.


Cais e baía vistos da cidade de Porto Amélia


Cais de Porto Amélia,e vista da baía de Pemba

Baía de Mocimboa da Praia


Porto de Nacala,na baía de Fernão Veloso

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Natal de 1969

Na véspera de natal,logo pela manhã,acabamos a patrulha e fundeamos frente ao porto na Beira.
Entre todos decoramos a tolda com bandeiras,e montamos mesas corridas,era o primeiro natal a bordo e em África.
O comando decretou que só haveria licenças após o jantar,queria nos todos juntos,era uma noite especial.
Com o pensamento nos nossos familiares ausentes,mas em sua substituição tínhamos a família de bordo,e era com esta família que iríamos jantar.
O jantar decorreu da melhor forma,foi uma verdadeira festa de convívio,no final entre todos arrumamos todos os materiais,e aprontamo-nos para ir a terra,era só para beber um copo,pois naquela noite o movimento na cidade deveria ser nulo.
Foi estabelecido o horário da embarcação da capitania que nos faria o transporte terra / navio.
Logo que a embarcação acostou ao portaló,o Rui entrou ,foi mandado sair,porque por norma entravam primeiro os oficiais,seguidos dos sargentos e só depois os praças,o desembarque era da mesma forma.
Quando chegou a nossa vez de embarcar,chamamos o Rui,respondeu que já não ia.
Em terra bebemos um copo,combinamos ir todos para bordo na embarcação da 1 hora ´,porque a próxima seria ás 7 horas da manhã.
Perto da nossa hora de embarque,correu pelos sítios onde estávamos,a informação,que havia um problema grave a bordo da fragata,e já se falava em um morto,todos em correria nos dirigimos para o cais,efectivamente algo não estava bem a bordo,a embarcação da capitania descia e subia o rio,passava perto de nós,embora os chamasse-mos nem nos respondiam,os nossos botes navegavam no rio,holofotes apontados á água,e ouvíamos do cais transmitirem ordens a bordo,embora audivéis,mas não conseguíamos decifrá-las ,o que se estava a passar era mesmo grave.
No grupo alguém disse foi o Rui,ficamos a aguardar no cais sem nada poder fazer,era já dia quando nos vieram buscar,o nosso receio confirmou-se, tinha sido o Rui, tinha desaparecido nas águas do rio Pungué.As lágrimas corriam mesmo nos rostos mais duros.
Foi um dia triste,acabavamos de perder um colega e amigo,tomamos conhecimento que o Rui,se encostou a balaustrada a ré,deve-se ter desequilibrado e caiu ao rio.
Apareceu numa praia quase dois dias depois,fomos ao hospital reconhecer o corpo,do fardamento o que tinha era o cinto e os sapatos,reconhecemo-lo pelo cabelo quase encaracolado e por uma tatuagem no braço igual ás nossas.
O seu funeral realizou-se para o cemitério de Santa Isabel na Beira.
Após as honras militares,despedimo-nos do nosso amigo.
Os seus pertences pessoais,foram recolhidos por um oficial e dirigidos ao Ministério da Marinha em Lisboa,que os faria chegar á sua família,da sua família só sabíamos que eram da zona de Barcelos,nada mais.

Rui Carneiro dos Santos 1.º Grumete Manobra - 810/67